Outono

Hoje eu me sinto sozinha. Mas não estamos sozinhos, todos nós?

Hoje eu olhei pela janela e percebi que o amor acaba. Acaba numa flor que murcha, num beijo escondido, no nó na garganta tentando explicar que não é igual ao início. Que esse frio de outono tomou o coração e fez cair as folhas de cada arvorezinha que a gente tentou cultivar.

Hoje eu decidi te beijar diferente, pra ver se tu sentia. Hoje eu decidi não ir atrás, não correr pros teus braços que tanto me acalmaram. Eu decidi morrer sozinha.

Eu decidi que o amor acaba e que talvez eu não precise de amor tanto assim.

Eu decidi ser quem eu sou pra mim. Decidi que tuas críticas são tão supérfluas quanto teus amigos. Que eu não sou números, eu não sou isso ou aquilo. Eu decidi que pra ti, pro mundo, pra todo mundo, eu sou nada. E nesse nada, eu decidi que finalmente posso ser eu.

Resoluções de ano novo por um otimista

“Pro ano novo? O que eu quero?”

Não sei. O que tu queres?
Mais amor, mais sorrisos falsos, mais beijos no pescoço.
Mais uma dose, por favor.
Mais noites sem deitar na cama só pra lembrar daquela que se foi. Mais noites alucinando, mais dias escuros e noites sem conseguir dormir. Sem conseguir pensar.

Mais palavras escritas e menos palavras ditas, mais café pra aguentar as três horas de sono durante as doze horas de expediente, mais tentativas e mais falhas, mais cortes nos pulsos, mais tentativas de não pensar em tentar se matar.
Mais dinheiro, mais peitos, menos quilos e essa porra de quadril enorme que nunca sai.

Menos amigos, cada vez menos, parece que eles gostam de sumir. Menos amor. Menos importância e menos carinho. Mais preocupação com quem não se preocupa. Mais ansiedade, mais depressão, mais “para de ser dramática”, menos olhos ternos, mais olhos que te engolem em julgamento e ódio.

Menos lembranças, mais saudade. Mais segundas nubladas, mais primaveras chuvosas, mais vontade de ir embora pra sempre. Menos risadas, mas menos lágrimas também. Mais um coração de pedra pra coleção e mais um troféu na estante de quem não te quer.

“Mais saúde e paz pra todo mundo.”

Pensamentos

Sinto muito por ter começado isso.

Era o que eu queria te dizer.

Sinto muito por ter pego teus amigos emprestado. Sinto muito por ter, sei lá, te deixado de lado pra tentar ser legal com eles. Não sei o que tu sente e tu não diz.

Sinto muito por ter absorvido tua vida, teus gostos, tuas roupas, teu cheiro.

Sinto muito por estar ouvindo tua banda preferida, aquela, que eu nunca tinha ouvido falar antes de tu aparecer.

Sinto muito ter entrado na tua vida desse jeito.

Sinto muito não ter muito pra te oferecer.

Sinto muito por não prever o sentir.

O sentir é vago, é verdade, ainda mais pra nós. Vago de explicação, vago de palavras. “A gente não tem que explicar”, tu me escreveu uma vez. Eu li ontem, de novo e de novo e eu pensei duas vezes. A gente tem que explicar sim, a gente tem que dizer o por quê. A gente só não pode deixar os pensamentos escorrerem assim nas mãos dos outros. Vai que eles não gostem de dividir? Vai que eles não vão gostar? Vai que não dura?

Vai que o “sinto muito” vira um “não sinto”…

Janela

A garota da janela
Que não me vê
A garota da janela
Que não espera
Nada de mim
Nada do mundo
Nada dela
Nada dela na janela
A garota morreu
Pintada numa tela
Que fica
Na minha janela
Ora janela dela
Pois se ela
Está na tela
E a tela
Na janela
A janela
É da tela
E a tela
É dela

Metafísica

As curvas uniformes
Os caminhos retilíneos
Amassa
Força
Tua mão me traça
Teus olhos medem
Meu corpo
Teus traços
Meus braços
Criei raiz, criei espaço
E nesse módulo
Na nossa dimensão
No nosso espaço-tempo
Na metafísica da física
Do universo
Existe eu e tu
E a gente nu
E a gravidade na tua órbita
Me puxou
Me girou
Me dançou
E me explodiu